Marcadores e doenças

Valores do sangue e doenças

Esta página reúne os exames que aparecem de fato em um laudo brasileiro, agrupados como o próprio laboratório os agrupa. Foi escrita para quem está com o resultado na mão e quer entender o que significa cada linha antes de falar com o médico.

Exames de laboratório

Todos os valores na ordem do laudo

Um laudo brasileiro abre pelo hemograma e quase sempre fecha com vitaminas e marcadores de inflamação. Os seis blocos abaixo seguem exatamente essa sequência, para que você leia a página e o papel em paralelo, sem pular de um lado para o outro.

Hemograma completo

Leucócitos WBC
Número total de glóbulos brancos: sobe em infecções bacterianas e com corticoide, cai em algumas viroses.
Hemácias RBC
Contagem de glóbulos vermelhos: isolada diz pouco, precisa ser lida com hemoglobina, hematócrito e VCM.
Hemoglobina Hb
A proteína que transporta o oxigênio: é o valor que define se existe anemia e qual o seu peso.
Hematócrito Ht
Percentual do sangue ocupado pelas células: cai na anemia e sobe quando a pessoa está desidratada.
Volume corpuscular médio VCM
Tamanho médio das hemácias: separa a anemia microcítica por falta de ferro da macrocítica por falta de B12.
Hemoglobina corpuscular média HCM
Quantidade de hemoglobina por hemácia: acompanha o VCM e confirma em qual grupo a anemia se encaixa.
Amplitude de distribuição das hemácias RDW
Mede o quanto as hemácias variam de tamanho entre si: sobe cedo na falta de ferro que está começando.
Plaquetas PLT
Células da coagulação: valores baixos favorecem sangramento e os altos costumam ser reação a infecção ou falta de ferro.
Neutrófilos segmentados
A fração mais numerosa do leucograma: primeira linha contra bactérias e muito reduzida durante quimioterapia.
Linfócitos
Células da imunidade adquirida: sobem proporcionalmente nas viroses e, se ficarem altas por meses, pedem avaliação hematológica.

Fígado, vias biliares e pâncreas

TGO AST
Enzima presente no fígado, no coração e no músculo: sobe depois de exercício intenso sem qualquer doença hepática. Ler o guia
TGP ALT
A enzima mais específica do fígado: sobe quando as células hepáticas sofrem, muitas vezes sem sintoma nenhum. Ler o guia
Gama-GT GGT
Enzima das vias biliares: reage com sensibilidade a álcool, medicamentos e gordura no fígado, sem apontar a causa. Ler o guia
Fosfatase alcalina FA
Vem do fígado e também do osso: sozinha não revela a origem, e a gama-GT ajuda a separar as duas. Ler o guia
Bilirrubina total e frações
Pigmento da quebra das hemácias: a fração direta aponta via biliar e a indireta, hemólise ou síndrome de Gilbert. Ler o guia
Albumina
Principal proteína do plasma: cai na doença hepática crônica, na desnutrição e na perda renal de proteína.
Amilase
Enzima do pâncreas e das glândulas salivares: sobe na pancreatite, mas é menos específica que a lipase.
Lipase
Enzima pancreática mais específica: valores muito elevados sustentam com força a suspeita de pancreatite aguda.

Rins e eletrólitos

Creatinina
Resíduo do metabolismo muscular filtrado pelo rim: depende da massa muscular, por isso vem sempre acompanhada da TFG.
Taxa de filtração glomerular estimada TFG
Estimativa da função renal calculada a partir da creatinina, idade e sexo: é o número que define o estágio renal.
Ureia
Produto final das proteínas: sobe na perda de função renal, mas também com desidratação e dieta muito proteica.
Ácido úrico
Produto da quebra das purinas: valor alto aumenta o risco de gota, porém por si só não é doença.
Sódio Na
Eletrólito que comanda o equilíbrio da água no corpo: reflete hidratação, medicamentos e função hormonal.
Potássio K
Eletrólito essencial para o ritmo do coração: valores muito alterados pedem avaliação médica rápida.
Cálcio total
Mineral do osso e da contração muscular: precisa ser lido junto com albumina, vitamina D e PTH.

Glicemia e lipidograma

Glicemia de jejum
Açúcar no sangue depois de oito horas de jejum, em mg/dL: retrata apenas o momento da coleta.
Hemoglobina glicada HbA1c
Média do açúcar dos últimos dois a três meses: não depende do jejum nem do café da manhã.
Insulina de jejum
Quanto de insulina o pâncreas libera em repouso: alta sugere resistência antes de a glicemia subir.
HOMA-IR
Índice calculado com glicemia e insulina de jejum: estima resistência à insulina e vale apenas com o quadro clínico.
Colesterol total
Soma de todas as frações: isolado ajuda pouco, porque não separa o LDL do HDL.
Colesterol LDL
A fração que se deposita na parede das artérias: é a meta que o tratamento realmente persegue.
Colesterol HDL
A fração que retira colesterol dos vasos: valores baixos pesam mais quando os triglicerídeos estão altos.
Triglicerídeos
Gordura circulante muito sensível a jejum, álcool e açúcar: uma ceia pesada já altera o resultado.

Tireoide e hormônios

TSH
Hormônio da hipófise que comanda a tireoide: é o exame mais sensível para detectar tireoide lenta ou acelerada.
T4 livre
Fração livre do principal hormônio tireoidiano: mostra se a alteração do TSH já afeta a função.
T3 livre
Hormônio tireoidiano ativo nos tecidos: ajuda mais a dimensionar o hipertireoidismo do que o hipotireoidismo.
Anti-TPO
Anticorpo contra a enzima da tireoide: quando alto torna provável tireoidite autoimune, sem dizer a função atual.
Cortisol matinal
Hormônio do estresse com ritmo diário: só tem leitura confiável quando colhido entre sete e nove da manhã.
Testosterona total
Principal androgênio: no homem cai com idade e obesidade; na mulher, valores altos levam a investigar SOP.

Ferro, vitaminas e inflamação

Ferro sérico
Ferro que circula no momento da coleta: varia muito ao longo do dia e não mede o estoque do corpo.
Ferritina
A reserva de ferro do organismo: baixa confirma carência, mas sobe em qualquer processo inflamatório.
Saturação de transferrina IST
Percentual do transporte de ferro que está ocupado: complementa a ferritina quando existe inflamação junto.
Vitamina B12
Necessária para nervos e hemácias: falta em dieta vegana, cirurgia bariátrica e uso prolongado de metformina.
Ácido fólico
Vitamina essencial para produzir hemácias: a carência aumenta o VCM exatamente como a falta de B12.
25-OH-vitamina D
Forma de depósito da vitamina D: vem baixa com frequência mesmo em país de sol, por vida em ambientes fechados.
Proteína C reativa PCR
Marcador de inflamação que sobe em poucas horas: mostra o quanto, nunca onde nem por quê.
Velocidade de hemossedimentação VHS
Marcador de inflamação lento: sobe e desce depois da PCR e permanece elevado por mais tempo.

Doenças e quadros clínicos

Quais exames pesam em cada quadro

Nenhum exame de sangue fecha um diagnóstico sozinho. Cada valor entrega uma peça que, junto com os sintomas, o exame físico e a história da pessoa, monta um quadro. As combinações abaixo mostram quais exames realmente contribuem para cada pergunta.

Deficiência de ferro e anemia ferropriva

É a carência nutricional mais comum no Brasil, sobretudo em mulheres em idade fértil. Hemograma e ferritina mostram se o estoque acabou e se já existe anemia; de onde vem a perda, só a investigação seguinte esclarece.

FerritinaHemoglobinaVCMRDWSaturação de transferrina

Deficiência de vitamina B12 e de ácido fólico

Aparece em dieta vegana, depois de cirurgia bariátrica e em quem usa metformina ou inibidor de bomba de prótons por anos. Hemácias grandes no hemograma levantam a suspeita, que se confirma dosando B12 e folato.

Vitamina B12Ácido fólicoVCMHemoglobinaHemácias

Hipotireoidismo

Cansaço, intestino preso, pele seca e ganho de peso levantam a hipótese de tireoide lenta, mas são sintomas inespecíficos. TSH alto com T4 livre ainda normal sugere a forma subclínica; T4 livre baixo, a forma manifesta.

TSHT4 livreT3 livreAnti-TPO

Hipertireoidismo

Palpitação, agitação, calor e perda de peso combinam com tireoide acelerada. O TSH suprimido é o primeiro sinal; os hormônios livres e os anticorpos entram depois para separar as causas possíveis.

TSHT4 livreT3 livreAnti-TPO

Tireoidite de Hashimoto

É a causa mais frequente de hipotireoidismo permanente. Anti-TPO elevado torna provável uma inflamação autoimune, porém não informa nada sobre a função atual, que se lê somente no TSH e no T4 livre.

Anti-TPOTSHT4 livre

Pré-diabetes e diabetes tipo 2

Glicemia de jejum e hemoglobina glicada descrevem juntas como andou o metabolismo do açúcar nas últimas semanas. Resultados de limite precisam ser repetidos e confirmados antes que se fale em diagnóstico.

Glicemia de jejumHbA1cInsulina de jejumTriglicerídeos

Resistência à insulina e síndrome metabólica

O quadro se forma pelo conjunto de circunferência abdominal, pressão e exames. No laudo chama atenção a combinação de triglicerídeos altos com HDL baixo, glicada subindo e gama-GT levemente alterada.

HOMA-IRInsulina de jejumTriglicerídeosColesterol HDLHbA1c

Dislipidemia e risco cardiovascular

Colesterol alto não dá sintoma e quase sempre é descoberto no laboratório. O que importa não é o total, mas o LDL interpretado diante do risco cardiovascular global daquela pessoa.

Colesterol LDLColesterol HDLColesterol totalTriglicerídeos

Esteatose hepática (fígado gorduroso)

É uma das explicações mais comuns para TGP alterada encontrada por acaso. TGP e gama-GT discretamente altas com triglicerídeos elevados e glicada subindo tornam o quadro provável; a confirmação vem da ultrassonografia.

TGPGama-GTTriglicerídeosHbA1cTGO

Lesão hepática pelo álcool

Nenhum exame prova consumo de álcool isoladamente. O que chama atenção é o desenho do conjunto: gama-GT mais alta que as transaminases, TGO acima da TGP e VCM aumentado sem carência vitamínica.

Gama-GTTGOTGPVCM

Doença renal crônica

O rim perde função por anos sem dar sintoma. A TFG repetida por pelo menos três meses, junto da proteinúria, é o que situa a doença em um estágio; uma creatinina isolada não faz isso.

CreatininaTFGUreiaPotássioCálcio total

Gota e hiperuricemia

Ácido úrico alto ainda não é gota: muita gente nunca tem uma crise. Durante a crise aguda a uricemia pode inclusive vir normal, enquanto PCR e leucócitos sinalizam a inflamação da articulação.

Ácido úricoPCRLeucócitosCreatinina

Deficiência de vitamina D e hiperparatireoidismo secundário

Mesmo com sol abundante, a 25-OH-vitamina D vem baixa em boa parte dos laudos. Quando a carência se prolonga, o organismo eleva o PTH para defender o cálcio, e a fosfatase alcalina mostra se o osso já entrou na conta.

25-OH-vitamina DCálcio totalFosfatase alcalinaAlbumina

Infecção aguda e estado inflamatório

Os exames ajudam a medir a intensidade de uma inflamação e a perceber se o padrão lembra mais bactéria ou vírus. PCR alta com neutrofilia aponta para bactéria; linfocitose relativa, para quadro viral.

PCRVHSLeucócitosNeutrófilos segmentadosLinfócitos

Pancreatite e sofrimento pancreático

Dor na parte alta da barriga que atravessa para as costas justifica dosar as enzimas do pâncreas. Lipase muito elevada sustenta a suspeita com força, mas a confirmação exige exame clínico e imagem.

LipaseAmilasePCRCálcio totalGlicemia de jejum

Envie seu laudo e leia cada linha em português claro

Envie o resultado em PDF ou como foto. A análise compara cada valor com o intervalo de referência do próprio laboratório, explica as alterações à luz dos outros exames e indica o que vale levar para a consulta.

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O resultado é informação de saúde: não substitui a consulta médica nem estabelece diagnóstico.

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre exames e laudos

O intervalo de referência abrange os 95 por cento centrais das pessoas saudáveis usadas como comparação. Por estatística, portanto, uma pessoa saudável em cada vinte cai fora dele sem ter doença alguma. Um valor levemente deslocado, sem sintomas, costuma ser motivo para repetir e acompanhar, não para se assustar. Ele passa a ser informativo quando vários exames coerentes apontam na mesma direção ou quando aquele mesmo valor continua se movendo em coletas seguidas.

Para o hemograma, não. Pedem jejum de oito a doze horas a glicemia, os triglicerídeos e a insulina; para um lipidograma completo, doze horas são o mais confortável. Água e chá sem açúcar estão liberados. O horário também conta: cortisol e testosterona se dosam no início da manhã, e o ferro sérico varia bastante ao longo do dia.

Porque o intervalo depende do método e do equipamento usados. Se o laboratório troca de plataforma analítica, os limites mudam sem que nada tenha mudado no seu corpo. Por isso um valor deve ser comparado com o intervalo impresso ao lado dele, no mesmo laudo, e não com uma tabela encontrada na internet.

Sim, são os mesmos exames com nomes diferentes. TGP corresponde à ALT e é a mais específica do fígado; TGO corresponde à AST e existe também no coração e no músculo esquelético, por isso sobe depois de treino intenso. A gama-GT, ou GGT, vem das vias biliares e reage com sensibilidade a álcool, medicamentos e gordura hepática. Laudos brasileiros costumam imprimir as duas nomenclaturas lado a lado, e o que informa é a relação entre as três, não um número isolado.

A glicemia de jejum é expressa em mg/dL, diferente dos países que usam mmol/L. A hemoglobina glicada aparece em porcentagem na maioria dos laudos, e muitos laboratórios imprimem ao lado o valor padronizado em mmol/mol: 5,7 por cento equivalem a cerca de 39 mmol/mol e 6,5 por cento, a cerca de 48 mmol/mol. Ao comparar exames de anos diferentes, confira sempre a unidade indicada.

Não. Um hemograma dentro da faixa torna menos prováveis algumas situações, como anemia importante ou infecção bacteriana em curso, mas não afasta câncer nem muitas doenças crônicas. Sintomas que persistem precisam de avaliação médica mesmo quando todos os exames voltam dentro dos intervalos de referência.

Fontes e leitura adicional

Este artigo é informação de saúde, não um diagnóstico médico. Discuta sempre os seus resultados com um profissional de saúde.